Com a palavra, Eline Luz

Por, Eline Luz*

Conhecer a realidade e não querer transformá-la é uma contradição. Temos presenciado um cenário de desesperança e retrocessos em diversos campos. Economicamente, estamos vivenciando o avanço do neoliberalismo na sua forma mais crua. Ao mesmo tempo, nos últimos anos, a extrema direita tem escancarado o seu radicalismo e conservadorismo, o que desperta um grande alarme para a classe trabalhadora, mas principalmente para grupos que são excluídos, e até mesmo apagados, pela sociedade.
          Quando pensamos a educação como instrumento de transformação precisamos vincular isso a um projeto de sociedade. A universidade, é fruto dessa sociedade forjada na exploração e opressão, e, os muros que distanciam a população do conhecimento, não são capazes de deixar do lado de fora todas as contradições que vivemos. A universidade que temos hoje é machista, racista, homofóbica e elitista.
          É importante destacar que ela não apenas reproduz todas as formas de preconceitos existentes, mas também, tem papel fundamental na manutenção desta forma de sociabilidade. A pura produção de conhecimento, ao longo da história, foi o elemento central para conformação de uma sociedade, tanto no aspecto de construir algo novo, quanto de reforçar algo já colocado.
          Ser lésbica e disputar este espaço é um desafio constante neste mundo idealizado por homens cis e brancos, onde mulheres são subjugadas, violentadas e invisibilizadas. Duplamente negada pela sociedade, nós, mulheres lésbicas, encontramos diante dessa realidade grandes desafios para se constituir enquanto produtoras de conhecimento. Seja no reconhecimento acadêmico, seja no reconhecimento social enquanto pesquisadoras em qualquer categoria da academia.
          Essa dificuldade não é obra do acaso. Temos hoje uma universidade onde é cada dia mais difícil a classe trabalhadora se manter nela, por conta da falta de investimento público. E, como consequência desse distanciamento, o conhecimento produzido finda em si mesmo, sem produzir retorno para a comunidade externa.
Em um momento de ascensão de um governo reacionário, que traz como uma de suas principais bandeiras a “ideologia de gênero”, a resistência dentro e fora da academia é essencial para que direitos conquistados com luta não sejam retrocedidos. E, por entender que a ciência é disputa ideológica, onde a classe dominante busca, por meio dela, dar poder às suas ideias, é, também, na disputa desse espaço que conseguimos formular sobre a sociedade que desejamos.
          Pensar a importância da mulher lésbica na universidade, é ter como possibilidade, a produção de um conhecimento revolucionário capaz de fazer um enfrentamento à ideologia dominante. Se temos hoje uma sociedade onde as pessoas são mortas por serem mulheres e homossexuais, precisamos de uma universidade capaz de apresentar e formular alternativas de superação.

*Eline Luz é militante comunista, graduada em Comunicação Social/RTV pela Universidade Estadual de Santa Cruz e especialista em Meios de Comunicação e Cultura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, estuda gênero e fotografia.