Diversidade sexual para quem?

Por Sara Wagner Pimenta Gonçalves Junior*

          Nascemos em um contexto social mergulhado em amarras teóricas, compreendidas como normas, regras e leis que a todo momento nos desafiam a pensar quando de fato, as coisas começam a acontecer, se quando tomamos consciência delas ou quando fomos cooptados pelo mecanismo, outrora instituído. Sabemos que nossas práticas cotidianas podem ser colocadas como desafio diante das situações morais e conversadoras, entretanto algumas práticas cotidianas podem subverter todo um sistema (Certeau, 1980).
          Para nós, pessoas transexuais e travestis, algumas práticas do bem viver sempre foram sonhos muito distantes para realização e que em muitos casos custaram muitas vidas e grandes perdas. Um almoço ou jantar em família, um culto de ação de graças, um passeio a beira mar, um lanche entre pai e filho, uma noite de festa, uma família…
          Tente imaginar tais eventos e atente se a como participantes, pessoas trans e travestis, podem facilmente desaparecer destas cenas em nosso imaginário. Ainda que você consiga pensar com tais corpos, esta realidade não é ainda vendida como prática corriqueira e capaz de abarcar o imaginário televisivo ou midiático para jovens trans. Mães, pais, irmãos ou avós são apenas exemplos de perdas físicas imediatas que alcançam alguns corpos, diante de uma revelação ou desabafo sobre si que um/a adolescente pode sofrer. A identidade sexual ou orientação sexual, se diversa desta hegemônica que opera diferentes graus de exclusão, podem se tornar um grande suplício para alguns de nós, se não compreendida com sua real importância.
          Quando dissemos que “O Brasil é o país que mais mata transexuais!”, não estamos apresentando uma frase de impacto, estamos dizendo que de algum modo quem comete o crime e quem se cala diante dele, ambos estão envolvidos nessa realidade que extermina homens trans, mulheres trans, pessoas não bináries e travestis. Quando temos 82%, enquanto número percentual da taxa de evasão escolar entre transexuais no Brasil, estamos dizendo que escolas (públicas e privadas) se apropriaram de formas de governamentalidade (Foucalt, 1978) cisgêneras que expulsão, segregam ou distanciam pessoas trans e travestis de suas responsabilidades. O que é um garoto, uma menina ou adolescente de 13 anos, senão uma possibilidade (de sucesso) em seus primeiros passos diante da vida que muitas vezes se torna injusta para muitas realidades? Mas é 13 anos, a média de idade em que pessoas trans são colocadas para fora de casa, pelas pessoas que mais lhe são queridas e que muitas vezes foram as únicas que lhes serviram como referência de ser humano e/ou cidadão. Muitas vezes sem outros apoios, passa se de uma possibilidade de sucesso para uma de reveses.
          Falar sobre diversidade sexual é importante e urgente, diante da discussão sobre a vida, quando 83% dos assassinatos de pessoas trans e travestis, fazem uso excessivo de violência para eliminar um corpo trans. Não é um tiro, uma facada no peito ou uma tijolada na cabeça! São crimes imersos em covardia, dor e falta de compaixão. São vários tiros, várias facadas dadas mesmo depois do corpo da vítima inerte, ou tantas tijoladas na cabeça depois da morte para que seja deformado inclusive uma possível imagem pós morte.
          É claro que viver é fácil, se não fosse 60%, a taxa de depressão entre pessoas trans no mundo, quando para 90%, a prostituição seja seu único o destino, o final para pessoas que simplesmente não concordam com amarras teóricas e sociais que a ninguém atende, senão aquele que odeia a vida e a liberdade alheia. Se é a escola e a família, as instâncias primárias e essenciais para a socialização dos sujeitos, o que fazer quando a sua família lhe vira às costas e a sua escola lhe fecha as portas?
          Hoje no Brasil, 0,02% é o número percentual de pessoas trans e travestis nas universidades no Brasil, algumas delas como eu, apesar de termos sido retiradas delas muitas vezes, insistimos em prosseguir de alguma forma, para dizer ao mundo e por onde passamos, sobre a urgência em se falar sobre DIVERSIDADE SEXUAL. Ao falarmos de diversidade trazemos os exemplos travestis e trans, por entendermos que são os corpos mais dilacerados pela ausência de políticas públicas e para dizer que se um corpo trans ou travesti transita por um espaço sem constrangimento, qualquer outro corpo poderá também por lá transitar.
          A vida e sua brevidade é constatada a cada suspiro e diante de tantas possibilidades em experiênciar os sentidos e fazer a vida ser útil e ampla aos nossos propósitos reais de bem viver, ainda estamos tolhidos em cercear a vida e liberdade alheia? Qual é o seu propósito de vida? Encontre o e faça valer a pena sua existência para você, pensar em si nesse momento pode corroborar para enxergar o outro.
          Os dados apresentados nesta amostragem são interseccionais, isto é, estes dados também dialogam com outros temas. Por isso, nossas práticas cotidianas precisam atentar para exclusão dos grupos que escapam das normativas sociais que operam culturalmente como saberes para exclusão. É preciso trazer a discussão para o nosso dia a dia, é preciso dizer que diante de lutas de classe, raça e gênero, não podemos ser omissos ou isentos diante destes dados. É preciso lutar, ampliar e discutir até que um dia, mulheres pretas retintas Intersexo trans deficiente e não-bináries, sejam tão bem-vindes, em todos os espaços, que outras mulheres, não precisarão repensar suas formas de liberdade, por que então, todas serão bem-vindas

*Sara Wagner York ou Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior, mulher trans/travesti, pai e avó. Graduada em Letras – Inglês e Literaturas em Língua Inglesa (Licenciatura / UNESA) e Pedagogia (Licenciatura / UERJ). Voluntária por dois anos junto a ONG Britânica Sahir House no Reino Unido, que atua em ações de inclusão de refugiados oriundos do Oriente Médio e África. Desenvolve pesquisa em transmigrações, movimentos LGBTI+ e Educação (Escola pública, infâncias, crianças e adolescentes) e formação para educação democrática. Premiada com a Medalha ALUMNI da Universidade Estácio de Sá (2017) pelos trabalhos científicos desenvolvidos na instituição e atuação junto à comunidade, participa de grupos focais Trans/travestis, QUEER e CRIP. Especialista em Escola de Tempo Integral e Mestranda em Educação. Bolsista CNPq.