Sobre a tal da bissexualidade

Por Karolen Passos*

         Todo e qualquer texto necessita de contexto, para tanto vamos a este: meu nome é Karolen Passos, tenho 25 anos, sou carioca – ou seja, nascida e criada na cidade do Rio de Janeiro –, sou jornalista e trabalho na área de críticas há quase dez anos, sou “marqueteira”, comunicadora e tudo que envolve a comunicação social um pouco. Ah, detalhe importante para este artigo: sou bissexual. E como eu descobri isso? Vou contar um pouco da minha trajetória para vocês.
         No auge dos meus doze anos assisti um filme chamado “Imagine Eu & Você”, que tem a Lena Headey como protagonista, e ao término da história percebi que fazia todo sentido se apaixonar por uma garota. Quando minha primeira crush em uma menina se tornou algo real, decidi me aceitar como homossexual, afinal, ser bissexual era coisa de “gente indecisa”. Por muitos anos vedei a possibilidade de me sentir atraída pelo sexo oposto e somente quando completei vinte anos, após o término de um relacionamento, que percebi que ser bi era – e continua sendo – algo completamente normal e natural.
     Aceitar-se bissexual dentro de uma sociedade bifóbica e uma comunidade que, em tese, deveria te abraçar, entretanto, insiste em te classificar como indeciso ou maior “possibilidade de trair” não é sempre uma trajetória para lá de muito fácil. Ouvir que agora você é hétero por estar namorando com alguém do sexo oposto ou que é lésbica/gay por estar com alguém do mesmo sexo também não contribui. É como se fosse um cabo de guerra em que a sua sexualidade se encontra no meio e as laterais seguem te puxando, como se estar no meio não pudesse ser algo concreto.
         É aquele clássico o B não é de biscoito, bicicleta ou qualquer palavra que comece com esta letra. Isto (bissexualidade) é tão natural quanto as outras sexualidades. Quem nasce com esta orientação é um ser humano como outro qualquer que pode ou não optar pela monogamia, que pode preferir relacionamentos longos e duradouros ou curtos, não existe uma regra quantitativa quando se fala no indivíduo e o mesmo vale para os bissexuais. A dificuldade em aceitar que uma pessoa pode se sentir atraída por diferentes gêneros se encontra na limitação do sujeito em compreender que o outro pode ser diferente dele.
         Assim como falar, representar, frisar, debater é de suma importância para todas as letrinhas integrantes da sigla LGBTQI+, é também para o B, dentro e fora da própria comunidade. Necessário argumentar que as representações dentro do audiovisual, que segue sendo um dos produtos mais acessados pela sociedade no geral, é de magnitude tamanha, tanto para aqueles que são bissexuais quanto para aqueles que não são. Afinal, é através do ato de se ver que a pessoa ganha força para ser quem é, assim como através do fato de ver o outro representado que se compreende quem ele é e se perde o famoso medo daquilo que desconhece.
         Dito isto, é indispensável salientar a importância de um laboratório de linguagens e diversidade sexual dentro de uma universidade. Afinal, é um espaço que permitirá ao outro sentir-se confortável para se expressar, assim como, se identificar. Ao mesmo tempo em que abre um caminho para que outras pessoas passem a enxergar o outro por aquilo que ele é, sem preconceitos. Falar de sexualidade é vital dentro de uma sociedade que ainda tem dificuldades em enxergar as diferenças como algo natural. Ser bi, gay, lésbica, trans, queer, etc, não só precisa como deve ser visto como algo normal e natural, ao ponto em que o “sair do armário” não seja mais algo necessário.

 

*Karolen Passos é formada em jornalismo por culpa da Lois Lane, crítica de filmes e séries há nove anos e marketeira no restante do tempo. Passa tanto tempo na estrada que já perdeu parte do sotaque carioca. Leitora ávida de ficção, biografias e quadrinhos, ela não dispensa um bom chá preto e uma música no último volume. Editora-chefe e co-criadora do site Lesb Out!, e crítica do Cinepop desde 2017.

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