Espelhos quebrados, gêneros em pó: sobre a inteligibilidade do outro

A inteligibilidade de gênero, a compreensão de outra pessoa enquanto humana, é um desafio do tamanho dos sistemas de colonialidade, isso porque para se reconhecer um gênero enquanto autêntico, é preciso reconhecer que o seu próprio, não precisa estar engessado, retilíneo e obrigado a performar coisas esperadas para ele. Nas proporções continentais do Brasil, a cisgeneridade compulsória ainda precisa compreender que ela mesma tem gênero.

Nos últimos dias, conversando com um amigo, eu comentei que às vezes, sinto-me como se eu assustasse as pessoas em algumas medidas, quando ao passo que expresso delineamentos mais complexos de uma política travesti, que busca respeito para mim e para outras pessoas trans, vejo expressões faciais murcharem, como se o que eu dissesse não estivesse sendo compreendido ou fosse extremamente estranho. Muitas vezes, fico pensando como quem se autossabota, que algumas pessoas devem me achar atordoada. Não que seja exatamente uma autossabotagem, mas enquanto pessoa trans, há uma preocupação autêntica que leva em consideração o fato de saber que há quem me veja puramente enquanto transtornada, e isso não é nada novo debaixo do Sol, levando em consideração que foi assim que, por anos, pessoas trans foram resumidas pela psiquiatria e psicologia.

Acessar outras subjetividades para desfazer preconceitos, é simplesmente um diálogo de fronteiras. Foi então que um amigo me deu uma resposta que me deixou pensativa nestes últimos dias: “É porque você dá tudo o que você tem, um espelho com um reflexo que a maioria não tem, e você constrói o espelho e o quebra na frente delas. É muita informação. Você espatifa o espelho que elas nem sabem que têm”.

Fiquei então pensando o quão essa observação do meu amigo me soou como um feedback da complexidade do que é tratar gênero no Brasil, e sobretudo em contextos interioranos e rurais, especificamente onde meu amigo e eu moramos. Mesmo sendo uma fala direcionada muito específica ao contexto rural ao qual me encontro, a realidade é que o espelho do gênero está tão fosco e arranhado pelos sistemas coloniais que, para muita gente, isso realmente soa como um desacobertar de um mundo que nunca existiu para elas, invenção atual. Não à toa, pessoas que estudam gênero, em algum momento de suas vidas, já ouviu que isso “é um assunto novo”.

Falar sobre gênero torna-se mais complexo ainda quando, de fato, o sistema biológico de gênero pré-determinado ao nascimento, soma-se ao desencontro de questionamentos privados, como se não houvesse nada mais estranho que o questionamento de si mesmo. Sempre inimaginável para além de outra situação, nascer homem e mulher é um processo em sólida lisura, um caminho tão certeiro, retilíneo e soberano, que jamais se passa pela cabeça de muita gente, questões sobre seus desejos e afetos, e muito menos sobre a sociabilidade e exercício disso. Muitas vezes só há culpa ou/e medo.

Contestar verdades absolutas não é quebrar espelhos inexistentes, o gênero e suas questões existem, porque assim o fizeram para oprimir aqueles que olharam para si mesmos, tornando-se autênticos com os seus sentimentos. Os problemas de gênero não começam com o fato de ser autêntico consigo mesmo, mas falar a verdade de si despudoradamente. Em nossa sociedade punitiva, falar a verdade de si é o contrário do que fomos ensinados, de acreditar e receber verdades absolutas.

Falar sobre gênero, de frente a um processo de lisura biológica cis-hétero-normativa, não é quebrar espelhos, mas baldear reflexos d’água ao piso, e talvez seja esse baldeamento que inicialmente cause estranhesa, já que por baixo do reflexo d’água está um piso alicersado, que serve de base para quem estiver sobre ele. Para a manutenção de opressões, é muito mais cômodo que os sistemas binários acreditem que o gênero seja uma questão só de quem fala sobre isso.

Acredito também, que a inteligibilidade de gênero, restaurada por aquelas pessoas que se propõem a esse debruçamento, não é tão somente sobre um terror de uma compulsoriedade binária. Parte vêm dos medos e incompreensões suscitados nas faces alheias, e a outra parte surge de quando muita gente passa a compreender o que se está por trás das violências de gênero e das realidades fortemente precarizadas.

Um outro fator preocupante, junto às lisuras de gênero, é a higienização. A higienização de gênero, como já devo ter dito aqui em algum outro momento, é a mirada que distingue pessoas e aplicam a respeitabilidade do “trans”. Em relação à “travesti”, como se um estivesse ligado ao abrigo social, à aceitação, aos cuidados e acompanhamento médicos, e o outro, rechaçado, automedicado, autodeterminado, prostituído e à rua.

Certa vez, conversando sobre a fronteira do diálogo entre a academia e o ativismo, tive o desprazer de uma  pessoa tóxica e evidentemente transfóbica, senão má, e que hoje não mantenho mais contato, me lançou a seguinte pergunta: “Não compreendo você se colocar como travesti, como você quer que as pessoas acreditem na sua luta, se sua imagem não condiz com o que o povo espera de uma travesti? Sua imagem não condiz com o que você diz, talvez se você usasse ‘trans’ fosse melhor”.

Agora eu pergunto, qual a imagem da travesti?

A higienização de gênero é cruel, transfóbica e humanamente antiética. É uma atitude extremamente maldosa, frente às pessoas trans, que jamais estarão adequadas a uma lógica binária e necropolítica da cisgeneridade compulsória. Uma pessoa trans, seja em qual espaço ela estiver, estará vulnerável a violências, uma vez que foi assim, transfóbica, que a nossa sociedade se fundou, ou afundou. Uma pessoa cis sugerir que uma travesti evite a palavra “travesti” e use a palavra “trans”, é de um absurdo sem tamanho, porque deixa de ser sobre qualquer palavra e passa a ser sobre negar sua identidade, aceitar os processos de marginalização, considerá-los naturais e tentar escondê-los, não dizendo que é travesti. Por outro motivo, isso é cafajeste, porque polariza os termos trans e travesti como se uma fosse merecedora, autêntica e legítima da rua, da marginalização, da violência, e a outra não. É preciso reafirmar sempre, que não existe distinção no direcionamento das palavras trans e travesti, ambas referem-se ao mesmo grupo social, que sofre transfobia.

Ainda, sobre a higiene social sofrida por homens e mulheres trans/travestis e gêneros inconformes, abro um parêntese. O processo de higiene social civil é agravado pelas dezenas de mortes de pessoas trans todos os anos, sempre crescente no Brasil. Por conta disso, dói muito viver sua identidade de gênero no limiar entre vida e morte. Frente a essa realidade física, é preciso denunciar governos federais, estaduais e municipais que sempre fizeram vistas grossas a este segmento populacional. Pelo contrário, muitas gestões públicas, como a que estamos ao meio, ataca abertamente quem compreende a importância do combate às violências de gênero, haja vista a proibição torpe que fomos incutidas, de não pronunciar a palavra “gênero” em escolas, em vários estados do país, assim como o atual governo federal, estrategicamente e abertamente LGBTfóbico. A higienização social pela demarcação preconceituosa de pessoas pelo gênero e sexualidade enquanto “imorais”, serve para que os “homens de bem”, civis e institucionalizados, façam barbaridades.

Tudo isso assusta muito, eu compreendo, pessoas que nunca se perguntaram como e, o que é gênero, junto a processos de violência. Nessa perspectiva, há uma imersão de privilégio cis-hétero, que pelo fato de nunca ter sido questionado pelo gênero e sexualidade desviante, desconhece o que está por trás de alguns corpos. Tal privilegiamento é uma pulverização de algo muito maior, de uma aparente categoria “gênero” enquanto homem e mulher “natural”, para um esfacelamento das estruturas de vida de pessoas generificadas enquanto “artificial”.

Mas isso causa danos até para pessoas cis-compulsórias, que não compreendem a organização dessa educação de gênero silenciosa, em nossa sociedade. A pulverização dessa estrutura enquanto um “desconhecimento”, também torna raso a categorização das vidas que importam e não importam, e é aí que encontra-se uma sutileza extremamente danosa, achar que o “desconhecimento”  de um sistema de violências é simplesmente “não conhecer”, quando na realidade é uma educação de gênero pelo silêncio, que engendra uma série de consequências para qualquer pessoa que ouse falar.

O sistema de “desconhecimento” é um sistema de formação. Não há desconhecimento porque, afinal, somos humanos que sabem que sabem. O que há, são resquícios de conhecimentos múltiplos, vindos da Igreja, do Direito, da Medicina, etc. E acreditar que o trato grosseiro ao gênero é puro desconhecimento pessoal de alguém, também é inocente. Por isso que eu me perguntei, afinal, quais espelhos eu estou quebrando? O que está é um mármore reluzente, que lacra sepulturas. E isso é o que deve ser quebrado. Em nossa sociedade ocidental, construída por saqueio, morte, rapinagem, mortes físicas e epistêmicas, não existe desconhecimento de nada, o que existe é a formação de tudo.

Levando em consideração que uma grande parte da nossa sociedade não convive com pessoas trans, e estas pessoas trans não estão às luzes dos dias. Sumariamente sumidas da sociedade, as poucas travestis que têm a possibilidade de um uso estratégico da formação social, devem falar de frente, sobre essas estruturas sepulcrais, e não devem ser interrompidas com o pretexto de “as pessoas não sabem”, ou “isso é novo”. O que não fica óbvio, mas está claro, é que se estamos falando sobre algo, é porque queremos compreender juntos, com todo mundo, como se dão essas estruturas. Falar é uma urgência de quebra de silêncios.

Com palavras e vocabulários que eles nos negaram, há uma necessidade urgente de falar, e além de falar o máximo que pudermos, devemos render incisivamente, porque se acreditarmos que o mármore reluzente chamado de espelho, é um espelho frágil, sempre quebrado ao falar de gênero, jamais falaremos de gêneros reais, relegados à forca. Caso contrário, só falaríamos insistentemente, de maneira generalista, “somos todos iguais”, e isso não é motivo substancial.

Na chamada quebra dos “espelhos” que não compreende a travesti, não há espelho nenhum, senão um mármore pesado e a formação de tudo, a pulverização do gênero e o espelhamento de silêncios, que fazem parte de uma estrutura delicada de mortes físicas e epistêmicas.

É o silêncio que deve ser quebrado. E quebrar isso, não significa que uma travesti surpreende negativamente e quebra as estruturas de alguém, significa que dou motivos para que se lute comigo contra opressões. Se a pessoa à qual apresentamos motivos de luta os compreendem enquanto ruim, já não está mais em nossa alçada. Nosso dever é quebrar os mármores sepulcrais, e sair ao sol.

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Florence Belladonna Travesti

Travesti do mato, andarilha por sítios e criada por mulheres bisavó, mãe, tia e madrinha em São João do Sabugi - RN. Gosta do vento, de banho de chuva e rio. Ama doce de leite, provar sorvetes e bolos. Aventura-se por palavras lidas e escritas como quem beija o infinito, a própria liberdade.

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