Uma semana uó: pequeno abalo das identidades foucaultianas na web e nuances da LGBTfobia recreativa

Acordar numa segunda-feira e ver várias pessoas comentando sobre uma notícia tendenciosa, que diz que Michel Foucault praticou pedofilia, quando morou na Tunísia, é uma tortura. Mais um botijão de gás armado à explosão, em um Brasil distópico, que caçou Judith Butler.

Michel Foucault (1924-1984) foi um filósofo francês que começou a ganhar visibilidade e fama internacional do fim dos anos 1950, perpassando as décadas de 1960, 1970, até 1984 quando faleceu. Homossexual assumido, com quase 30 anos de intelectualidade e militância pública, Foucault causou extrema ojeriza em muita gente, que sequer poderia imaginar ou aceitar que uma revolução radical no modo de ver as ciências humanas poderia ser iniciado por uma bicha.

Se história e filosofia são duas disciplinas básicas das humanidades, a importância das novas maneiras de pensar epistemologias e mentalidades ao longo do tempo, causou impactos institucionais imediatos. As perspectivas de Michel Foucault eram inovadoras para filósofos e historiadores, que agora buscam compreender metodologicamente, possibilidades de escrever histórias e pensamentos que não mais estavam somente em arquivos ou idealizados. Foucault trouxe uma materialidade política atuante na sociedade, para filósofos e historiadores.

Com escritos muito delicados, escreveu sobre sexualidade, organizações de discursos, e métodos de escrita e busca desta, dando-nos uma dimensão generosa sobre como os discursos (que pode ser qualquer coisa sistêmica), sempre em movimento, constroem modos de pensar e sociedades. Sempre muito delicado e cuidadoso com as palavras, não se deixou sucumbir em meio a uma sociedade normativa, conservadora, e em contexto de guerras e ditaduras.

A bicha que causou intelectualmente por aproximadamente 30 anos, ainda incomoda muito, e mais surpresa eu fico, em ver estudantes de Foucualt repercutindo uma notícia moralista contida em um livro de Guy Sorman, recém publicado e entitulado “My diccionary of bullshit” (Meu livro de bosta/besteira). Precisaria eu, de mais delongas?

Sorman é um escritor comercial, com escritos de baixa qualidade, nada científicos, quando comparados aos que estudamos na Academia, e acumula títulos como “O império das mentiras: a verdade sobre a China no século XXI”, “Economia não mente” e “A solução liberal”.

Ao que percebi, mesmo em um livro que se chama “Meu dicionário de bosta/besteiras”, acusar gravemente um filósofo do porte de Michel Foucault, soou como uma oportunidade perfeita para usar de aspectos como homofobia estrutural, e ganhar seus 5 minutos de fama internacional. E Guy Sorman conseguiu. Nós que fomos as tolas, e ainda por cima, demos cliques e visualizações a sites nem um pouco preocupados em verificar as fontes da informação. Neste momento, eu que sou a tola em justificar algo óbvio.

Mas algo me diz que é mais um botijão aberto esperando um fósforo, em um Brasil que caçou Judith Butler, foi exposto por gente inocente ou maldosa. Mesmo assim, acredito que por inocência, as pessoas que publicaram essa notícia em grupos foucaultianos, não perceberam de onde vinham essas informações. Esse tipo de escritos comerciais, acaba conquistando mais gente, que muitas vezes nem sabem que as palavras não são naturais. São títulos curtos e acusatórios, sucintos, ao contrário da academia.

Em termos científicos, se tem algo que a academia não é, é sucinta e acusatória. Um texto científico dá voltas e mais voltas, por diferentes fontes, até arriscar afirmar algo, muito modestamente. Ver um estudante dando importância e compartilhando uma mentira criminosa sobre Michel Foucault, gastando suas energias vitais com besteira, assim como o nome do livro indica, para o meu desespero, é chegar ao nível de formação política das fake news, no WhatsApp.

Michel Foucault precisa ser defendido sim, primeiro por honra àquele que não mais vive para se defender, e segundo, pelo próprio apego à história LGBTQI+. Se quem não tem história não tem nada, se deparar com acusações criminosas tão mal feitas, muito mais que óbvias em suas tendências, incomoda muito quem encontrou nos ensinamentos generosos de Michel Foucault, uma possibilidade de acalorar a vida, tão envolta de normatividades frias e frívolas, nesse pedaço de chão em que nós vivemos.

Outra coisa que está por trás, é a tendenciosidade de atrelar a homossexualidade e pessoas LGBTs, mais uma vez, aos desvios sexuais, como a pedofilia. Das mentalidades mais baixas que há, atrelar pessoas LGBTs a perversões sexuais como a pedofilia, é das mais tristes, porque isso nos molda também, como o fato de nem toda pessoa LGBTQI+ saber, por exemplo, interagir com crianças, ou demonstrar amores instantâneos aos “in-fans”, como a sociedade cis-héteronormativa demonstra. O atrelamento de pessoas LGBTs ao distúrbio de pedofilia é um preconceito tão consolidado ainda hoje, que nos deixa paralisadas, em determinadas situações.

Em outro viés muito diferente das acusações, estão os elogios. Acusação e elogio podem servir às normatividades, em modulações muito específicas, mas sempre muito danosas. Nesta última semana, também, tivemos o episódio em que Gretchen disse, em episódio ao vivo para um podcast famoso, em algumas passagens narrativas, que era “a bicha que deu certo”, que:

“O gay quer ser uma mulher, então eu sou a bicha que deu certo. Eu nasci mulher, mas eu tenho as atitudes e jeito de um travesti. Eu sou livre, eu sou artista, eu danço, eu falo o que eu quero, e o gay tem essa liberdade de ser o que ele quer, e por isso eles se espelham em mim” (Sic).

Eu conto, ou você conta? Mesmo em tom de elogio, o discurso traz alguns problemas, em evidência, sobretudo, a confusão generalizada e histórica entre homossexualidade e travestilidade. Mas o que me chamou atenção é que, mesmo que o discurso seja preconceituoso, ele tece um elogio de liberdade que ao menos inconscientemente, talvez, assume o desejo e o modo pelo qual somos vistas pelas normatividades: como livre, artista, dançarina, que fala o que quer.

Nas questões da transfobia recreativa em que se elogia uma pessoa trans, o problema não está no elogio, mas no que se esconde por trás dele. Tomando em consideração a condição de cis-hétera da artista, devemos compreender que o que muita gente compreende como “autenticidade LGBT+” está envolto em uma série de marginalizações e penalidades, muitas das quais circundam nossa vida inteira.

Fico imaginando que, o que as pessoas compreendem por “autenticidade” pelo fato de ser LGBT+ assumido, advém do pensamento de que para nós, falta paciência em viver sexualidades e gêneros que não nos agradam. Coisa que a normatividade, arrisco dizer, têm a curiosidade de compreender como funciona, já que por causa da nossa liberdade de sexualidade e de gênero, somos um grupo exotificado, como diferentes que precisam ser conhecidos. Exotificação, a palavra que melhor define processos pelos quais pessoas LGBTs ainda passam.

Bem à verdade, elogios a grupos historicamente marginalizados, que exaltam estratégias de sobrevivência frente as marginalizações, não são bem-vindos de maneira rasa, quando se leva em consideração que a figura da travesti caricata foi uma construção de sobrevivência e desarmamento social da transfobia. As travestis que cantam e dançam, são multi-artistas, foram-no e são-no, porque a arte não distingue gênero, a arte não oprime. Radicalmente o contrário, a arte liberta. Entreter os preconceituosos, fazendo-os rir, dançar, falar o que quer de uma maneira inesperada, nunca acabou com o preconceito, mas amenizava a forma dura com os quais os desprezos eram exercidos conosco. Por isso mesmo é que ninguém cis-hétero têm o direito de dizer que “é quase um travesti”. Por trás de cada risada, sapateado ou encenação teatral, sabemos onde estão os espinhos.

Já a confusão entre homossexualidade e travestilidade não é de hoje, por toda a história, a compreensão da travestilidade enquanto identidade de gênero é muito recente. Como a consolidação colonial que formou o ocidente só compreendeu dois gêneros, atrelados diretamente em práticas sexuais, oprimir as diferenças sempre foi a via mais fácil de tratar as dissidências sexuais e de gênero. A traduzir sexo enquanto uma verossimilhança de gênero, sempre indicativo de prática sexual, reduz as identidades humanas a muito pouco, em ativo-homem e passiva-mulher. Para os sistemas de opressão de gênero e sexualidade, quanto mais gente reduzida, melhor.

Não por acaso, Michel Foucault, supracitado, verificou que na Grécia Antiga, havia uma ligação tênue entre sexo e desejo entre homens de cultura guerreira: o problema não estava no sexo, mas sim em demonstrar gosto sexual por outros homens. Demonstrar servidão sexual, naquele contexto, significava ser tomado por um prazer afrodisíaco que deveria reger as mulheres e não os homens. Em sociedades antigas, havia uma simbiose complexa e ímpar entre religiosidade e vida social, e isso ainda influencia nossa sociedade atual, a partir do momento em que a Europa toma por berço civilizacional a Antiga Grécia.

Com o passar dos séculos, mudam-se os termos e refinam-se os pensamentos, mas assim como um sequenciamento genético, heranças discursivas se perpetuam ao longo do tempo. Mas assim como o DNA biológico, o “DNA” discursivo também é possível ser sequenciado. Volto a repetir, se quem não tem história, não tem nada, então que não nos deixemos enganar por falsas acusações e falsos elogios, que miram na destruição dos nossos caros patrimônios, caros.

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Florence Belladonna Travesti

Travesti do mato, andarilha por sítios e criada por mulheres bisavó, mãe, tia e madrinha em São João do Sabugi - RN. Gosta do vento, de banho de chuva e rio. Ama doce de leite, provar sorvetes e bolos. Aventura-se por palavras lidas e escritas como quem beija o infinito, a própria liberdade.

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