Sobre o mito da passabilidade: “se você quer ser MULHER, raspe as pernas”

O mito da passabilidade cerca pessoas trans, e não é de hoje, que são incutidas a esconder suas características comuns de uma dubiedade de gênero entre masculino e feminino, pelo menos em relação aquilo que as pessoas consideram masculino e feminino, que nos envolve a vida inteira.

Para muita gente trans, a passabilidade é adoecedora. O desejo de que sejamos nós, cópias de gente cis é uma utopia da cisgeneridade, mais do que de gente trans, e isso precisa ser compreendido porque, perpassado por diferentes nuances, belezas e sensibilidades, cada corpo tem suas próprias formas.

Afinal, o que está socializado por trás da passabilidade?

A denúncia começa pela própria adjetivação, como se “passar por” fosse algo bom. Logo, quem “passa por”, não é, ou seja, ser “passável” é colocar a cisgeneridade enquanto algo completamente preterido, e colocar um único aspecto de gênero enquanto central, completamente desejável, deslegitima todas as inumeráveis vivências trans femininas, masculinas, não-bináries, travestis enquanto autênticas.

Cada pessoa tem suas próprias performances de gênero, dentre cisgeneridade e transgeneridade, cada pessoa é única e socializa sua própria performance dentro de costumes que juntos, são compreendidos enquanto masculinos e femininos.

Também, não devemos acreditar que a própria organização de masculinidades e feminilidades são algo constituinte de gênero. É totalmente possível uma travesti não ser, tampouco desejar, uma feminilidade que vai para além da sua possibilidade de performance, daquela que é comum a ela. Isso também vale para homens trans e pessoas trans masculinas que não desejam padrões ou performances de masculinidades que não são do cotidiano deles. Ser trans, com identidade feminina ou masculina, não implica em “parecer” homem ou mulher, como querem que sejamos.

Certa vez ouvi de alguém, em tom de “defesa”, que ninguém seria tão mulher quanto uma travesti, que observa eximiamente os jeitas de uma mulher (cis), para tornar-los seus. Acredito que aqui temos um equívoco, que inclusive, corrobora para a formação de outros traumas em nós, pessoas trans: a acusação de falsidade ideológica.

Durante muito tempo, até 2020, quando só então eu cadastrei meu nome social junto ao meu nome civil, na SSP-RN, havia um medo gigantesco que pairava sobre mim, que era o de ser acusada de falsidade ideológica, já que, por ser trans e não ter documentos que atestassem isso, poderia ser usado por alguém para de me colocar longe de algum espaço. Esse medo generalizado que eu tinha, advinha de um local muito específico, de claramente não ter uma aparência tão feminina como as pessoas imaginam que deveria ter uma “mulher”, no sentido universal da palavra, sem distinção entre cisgeneridade ou transgeneridade. Mas ter uma mulheridade travesti, é ser confundida com homem constantemente.

Em 2018, compreendendo a colonialidade dos olhos que me definem, percebo que não tem mais poder sobre mim do que eu mesma, apesar de todas as violências que passamos diariamente. Eu raspei meu cabelo, e tornei-me uma mulher de cabelo curtíssimo por algum tempo. Nesse processo, teve pessoas que voltaram a me chamar no masculino, inclusive, pelo meu nome de registro. Pessoas que inclusive, se diziam minhas aliadas.

A questão da passabilidade, que me enxerga como uma cópia daquilo que eu queria ser, uma “mulher”, transfere para os aspectos materiais a nossa identidade, como se minha mulheridade só fosse legítima de eu tivesse o cabelo comprido, não tivesse barba, ou estivesse sempre com algum outro signo que fosse considerado autenticamente “de mulher”. De tantas cenas que me vem à cabeça, uma delas é uma piada que um homem me disse certa vez, na parada de ônibus onde esperávamos voltar da universidade para casa: “se você quer ser mulher, raspe as pernas. Mulher não tem perna cabeluda!”.

A minha transgeneridade não está em um cabelo comprido, nem em pernas lisas, nem na ausência de barba, nem em possíveis hormônios que possa vir a tomar. E especialmente, há algo que me incomoda mais ainda, a surpresa explícita das pessoas ao verem que em mulheres trans e travestis nasce a barba. A barba é um ponto especial para mim, porque não há nada menos “passável” explicitamente ao nosso corpo do que aquilo em que as pessoas primeiro olham, o nosso rosto.

E naquele momento de 2018, eu estava adoecida por, dentre outras coisas que implicam na transfobia, ter minha identidade deslegitimada constantemente.

Assim como também perguntam se não pretendo tomar hormônios, dizem que acham estranho eu ter barba. Bem, eu sou uma travesti que optei por não passar pela hormonioterapia, por compreender que esta poderá colocar meu corpo em alguns limites que eu não sei se daria conta. A hormonioterapia mexe com todo o nosso corpo, muitas vezes no humor, e também com a produção de outros hormônios, para além daqueles que dão características masculinas e femininas. E certamente, quem acha que uma pessoa trans “parece”, ou “deveria parecer” com alguém, não sabe ou nem imagina o que realmente passa uma pessoa trans.

Dando fim a qualquer desejo de passabilidade, eu sou uma travesti totalmente em paz com a minha testosterona. Que possamos seguir assim, sem desejar, sem se auto-cobrar e sem deixar que digam como deveríamos ser, ou com quem ou o quê deveríamos parecer. A passabilidade não existe, porque não precisamos passar por nada, nem por ninguém, somos autênticas, autênticos e autêntiques em nossas ininteligibilidades de gênero.

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Florence Belladonna Travesti

Travesti do mato, andarilha por sítios e criada por mulheres bisavó, mãe, tia e madrinha em São João do Sabugi - RN. Gosta do vento, de banho de chuva e rio. Ama doce de leite, provar sorvetes e bolos. Aventura-se por palavras lidas e escritas como quem beija o infinito, a própria liberdade.

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