A mitologia que envolve o pênis divino e desejado de homens cis-héteros

Em campos afetivos, coisas óbvias estão sendo ditas, mas que podem não ser tão óbvias pelo fato de termos uma série de fatores que desorientam nossa educação sentimental, desde crianças. Processos de colonialidade estrutural adentram por nossos sentimentos, e complexifica relações que poderiam ser muito simples. Exemplo disso, é o fato de as identidades trans femininas serem confundidas com masculinidades por homens cis-héteros.

Mais que uma confusão entre masculino e feminino, a deslegitimação de identidade é reveladora quando contestada por um viés afetivo. Na realidade, acusa-nos de uma relação sutil entre masculinidade tóxica e solidão desesperadoras de homens cis-héteros machistas, que mesmo sem dizer nenhuma palavra, é explícito aos olhos mais atentos, que enxergam por trás da transfobia.

Ao passo que o tempo passa e nossas identidades tomam seus devidos lugares, algumas perspectivas de convivência social tomam nuances ímpares, sui generis, que acontecem comigo antes de me compreender enquanto uma pessoa trans, e ainda mais agora, compreendida enquanto alguém sexualmente disposta e perigosa, lasciva e pronta para trepar, tão logo haja um pau próximo.

Essa vivência ímpar à qual me remeto volta-se a determinados campos de amizade. Enquanto pessoa que fala abertamente sobre gêneros e sexualidades dissidentes, minhas amizades íntimas são quase todas com várias pessoas LGBTs, e algumas mulheres cis-héteras que eu conto nos dedos de uma mão. E isso, pessoalmente, é um ponto nodal, porque voltando-se ao espelho, eu me deparo com o fato mais revelador: eu não tenho nenhum amigo homem cis-hétero.

Sempre que homens cis-héteros tentaram se aproximar de mim, antes e depois da transição, foi com intenções sexuais ou com curiosidades sobre aspectos de gênero e sexualidade que gostariam de saber, e presumiam que eu soubesse. Depois de curiosidades sanadas, voltavam-se a afastamentos profundos, sobretudo quando eles percebiam que eu também era receptiva com eles, diferentes deles comigo, sempre receosos a aproximações.

Na cabeça de muitos homens cis-héteros, a receptividade de pessoas trans com eles, diferente deles conosco, é um “pulo” para passarem a acreditar que nós os desejamos ardentemente, de maneira sexual. Isso aconteceu comigo algumas vezes, com alguns homens, quando me propus a tratá-los com cordialidade, simpatia e atenção, como qualquer outra pessoa deve ser tratada e como eu trato minhas amizades, com carinho, respeito e franqueza sentimental.

A autoficção que paira na cabeça desses homens, muito específicos, é que desejamos o pênis deles mais que tudo em nossa vida, e que qualquer sinal de afeição é uma deixa sexual. E como nada somos além de algo disponível apenas para sanar curiosidades e desejos momentâneos, dar a entender que qualquer pretensão de construir amizades e alinhamentos com eles é de uma petulância imensurável. É dizer, em outras palavras, que sempre seremos pessoas consideradas alheias.

Mas isso também revela outro processo mais complexo, sobre a solidão dessas masculinidades, que não conseguem se desvincular da ideia de um pênis glorioso e certamente, a única coisa de mais especial que um homem poderia oferecer.

Isso porque, longe dessa perspectiva, o que sobra senão afetos escassos? A falta de permissividade ao afeto espontâneo, a gentileza indiscriminada, gera subjetividades insensíveis, na perspectiva dessas masculinidades em questão, onde a dureza das relações sociais entre pessoas cis-héteras e pessoas LGBTs jamais passará de uma convenção social. É por meio dessas percepções afetivas muito sutis, que paira a sentença que jamais seremos vistas enquanto humanas.

O fato de eu não ter nenhuma amizade com homens cis-héteros é reveladora porque sentencia o meu local de objeto, de desumanidade, de descartável. Mas deixo a pergunta, sobre essa mesma representação de desumanificação delicadamente aplicada sobre uma estruturalidade sentimental, que coloca a representação de um pênis rijo enquanto seu principal afago, e que desqualifica à insignificância os diálogos e trocas afetivas com travestis: o que sobra quando o pau não sobe, e principalmente, quando não o queremos?

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Florence Belladonna Travesti

Travesti do mato, andarilha por sítios e criada por mulheres bisavó, mãe, tia e madrinha em São João do Sabugi - RN. Gosta do vento, de banho de chuva e rio. Ama doce de leite, provar sorvetes e bolos. Aventura-se por palavras lidas e escritas como quem beija o infinito, a própria liberdade.

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