Encontro no Supermercado

Por Alan Martins

Todo início do mês eu me arrumo: lavo e penteio os meus cabelos, hidrato a
minha pele, escolho a melhor peça do guarda-roupa e perfumo-me só para
apresentar o melhor de mim no encontro com ele. Ele, então amante na minha vida,
resguarda, em seu íntimo, os frutos dos meus desejos mais proibidos e que ainda
estão parceladamente sendo concretizados. Ele é minha companhia fiel já faz um
certo tempo. Gosto de tê-lo perto de mim, gosto de escutar seus conselhos quando
tenho dúvidas sobre fazer ou não fazer algo durante o mês, pois ele me
compreende tão bem que, embora eu reconheça que há certos momentos em que
discordamos sobre algumas decisões, ele sempre encontra atitudes sorrateiras para
me convencer. Reconheço que, de fato, minha vida tornou-se totalmente
dependente dele. Em todos os lugares em que eu não estou junto a ele, recordo-me
de suas carícias, em leves toques, por dentro do bolso da minha calça,
excitando-me para realizarmos um certo ato fecundo entre nós dois. Há dias em que
ele me deixa louco em usá-lo para satisfazer meus desejos carnais
recorrentemente, porém, aguento firme, do contrário, isso acabaria sentenciando a
minha vida e a dele à infâmia. Por isso, combinamos que o melhor a fazer são
encontros proibidos em lugares exóticos, mensalmente em todo início do mês, a fim
de que possamos apimentar e matar os desejos um do outro. Mês passado foi em
uma loja de roupas, onde pensei em desistir do nosso encontro dadas as
circunstâncias do momento, mas não demorou muito para que ele começasse a me
insinuar com seu poder de persuasão e, logo, deixei-me levar pelo êxtase do
momento. Até hoje sinto as consequências.
O local escolhido para o dia de hoje foi mais que propício ao nosso encontro:
o supermercado, visto que há um leque de possibilidades quando se trata de
corredores. Enfim, apressei-me para chegar no horário em que a movimentação de
pessoas é menor, o que melhoraria a nossa estadia no supermercado. Cheguei e,
como de costume, ele estimulou a minha imaginação: “pegue um carrinho para
entrarmos…”. Ele me conhece muito bem e sabe que, com o carrinho em nossa
frente, a diversão seria ainda mais excitante. Pois peguei e, sem pensar duas vezes,
começamos a passear pelo corredor dos cereais. Enquanto eu navegava o olhar
pelas prateleiras, senti que ele começava a me estimular por dentro do bolso da
minha calça, numa sensação que ia e voltava sincronizadamente com meu olhar.
Foi então que, lendo os meus pensamentos, ele me levou para o corredor dos
produtos de limpeza. Ele sabe que esse é o local que mais excita os meus desejos
por efetivar o nosso encontro e, além do mais, que a passagem de pessoas é menor
com relação a outras seções do supermercado. Não bastou andar muito por esse
corredor para que meus olhos, aventurando-se novamente pelas prateleiras,
fizessem com que o carrinho andasse mais devagar e, com isso, que os desejos
ardentes bombardeassem meus pensamentos. Nesse instante, comecei a
preencher o carrinho com produtos diversos, a fim de tapar as brechas que ainda
nos impedem de concretizarmos o nosso ato proibido. Então, meu fiel amante voltou
a me estimular pelo bolso da minha calça, na tentativa de alcançarmos mais
rapidamente o clímax de nosso encontro mensal. Passados alguns minutos, com o
carrinho cheio e a minha respiração ofegante, efetuamos o ato! Agora, ele não
precisou mais me estimular por dentro do bolso da minha calça, pois era chegada a
minha vez de tocá-lo e estimulá-lo a penetrar.
Assim, em um ato fecundo de penetração matando os meus desejos, ele me
fez esquecer dos problemas diários e, através de um orgasmo alucinante, pude
segurar, nas mãos, a evidência branca de que nesse encontro mensal, mais uma
vez, ele me fez feliz. No entanto, após sairmos do supermercado, senti que uma
culpa se apoderou de mim assim como da última vez que nos encontramos. Uma
culpa que me levou a pensar mais racionalmente sobre o ato que cometemos no
interior daquele supermercado e que, parceladamente creditado, colheremos as
suas consequências.

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