Conto: Pétalas Pipocantes +18

por Alan Martins

Ele me perguntou se eu como pipoca. Assenti com a cabeça que consumo
normalmente. Logo, aproveitei a oportunidade para questioná-lo sobre tal pergunta
já hipotetizando e dizendo, a ele, acerca de um convite para comer pipoca em sua
casa. Risadas à parte, ele afirmou que marcaria assim quando puder. Nisso,
voltamos aos nossos lugares no ônibus, cada um em sua cômoda existência de
cansaço diário. Direcionei a minha visão para a paisagem além da janela. Senti o
tempo passar vagarosamente e, enquanto meus pensamentos tentaram digerir as
questões do dia, meus olhos, subitamente, se fecharam…
Novamente, perdido em minhas dúvidas, eu me devaneei. Porém, não
demorou muito para eu ser chamado por ele. Seu falar foi, para mim, convincente
ao ponto de deixar-me ser guiado por sua persuasão, cujo assunto em questão era
“Eu posso fazer uma pipoca para a gente comer e assistir a um filme de boas”.
Oratória barata e insinuante?! Sim. Falta de expectativa de minha parte?!
Possivelmente. Mas quem não arrisca, não petisca.
Assim, após termos descido do ônibus, caminhamos ao encontro de sua
casa. Passos lentos e quase que sincronizados enquanto falávamos dos assuntos
mais diversos. Enfim, entramos em sua casa. O silêncio anuncia a inexistência de
outras almas naquele lugar. Apenas nós dois ali, duas almas maculadas pela
vivência, tentando entorpecer a realidade que nos estressa incessantemente. Ele
apresenta o seu quarto e me convida a me acomodar na sua cama até que ele
prepare a então responsável pela minha estadia extraordinária em sua casa: a
pipoca. Sentado em sua cama, fico parado, mas com os pensamentos em constante
aventura a imaginar o que estou fazendo ali e o que eu poderia esperar daquele
momento quase que abençoado pelo universo para acontecer.
A constância cognitiva é cortada pelo cheiro avassalador da pipoca que
permeia a casa inteira. Sinto um prazer enorme por esse aroma, pois, de alguma
maneira, ele parece indicar um forte sinal de que algo de muito bom me espera
nesta noite. Enquanto eu divagava pelo aroma da pipoca, o meu “masterchef” chega
com o cujo alimento saboroso. Sentados na cama, com a companhia de uma bacia
cheia de pipoca, navegamos pela internet no intuito de encontrar um filme que
agradasse a ambos. Enfim, encontramos e, então, o filme desenrola em nossa
frente. Tudo caminha bem, até que a graça em assistí-lo se perde para dar lugar a
novas conversas diversas, porém, mais atraentes do que o filme. Deu-se a pausa ao
filme e a conversa ganhou mais potência. Indo e vindo nas discussões, nos vemos
numa guerra de pipocas voadoras recheando toda a cama. O mesmo aroma que
antes me entorpeceu os pensamentos, agora, está presente ao redor de nós e em
nossos corpos. Por instinto, pego-me na vontade fantasiosa de lamber a sua mão,
agora, suculenta pelo sabor da pipoca. Provo-a e, quase como se estivesse
esperando por isso, ele produz uma expressão de prazer em seu rosto após tal ato.
Assim, no meio do silêncio que nos acompanha neste ambiente apetitoso, sem dizer
uma palavra, ele segura a minha mão direita e lambe um dos meus dedos. O
desejo, de ambos, intensifica-se e, como ato já predestinado, nossos corpos se
unem, se provam, se amam.
Naquele instante, senti o seu verdadeiro sabor enquanto homem. Sabor
temperado pelo momento, pela pipoca que nos agracia em meio à cama. Enquanto,
para muitos, a cama se enche de pétalas de rosas, para nós, ela se enche de
pétalas pipocantes, as quais evidenciam a cena ocorrida: pipocos de prazeres entre
dois corpos falantes. Enquanto nos atracávamos, o desejo nos subia, cada vez
mais, “às cabeças”. Parece que, mesmo sem palavras, ambos queriam resgatar,
retroativamente, os beijos, os amassos e as carícias não antes pipocadas entre nós
dois. Viramo-nos do avesso em meio ao êxtase do momento e, assim, a casca dura
de nossa interação social que se perdurava foi estourada feito milho de pipoca,
quase como se nunca houvesse existido. Em um momento de cansaço, nossos
corpos relaxaram-se um sobre o outro. Sinto sua respiração ofegante
aproximando-se dos meus ouvidos. Antes de me dizer algo, ele olha para meus
olhos, acaricia meus lábios com a mesma mão que deu o estopim para todo esse
pipoco de emoções e toques de pele. Sua voz, enfim, chega aos meus ouvidos e,
em tom leve de sussurro, ele me diz as seguintes palavras: “vai descer aqui?”.
Estranhei tal pergunta, contudo, antes que eu dissesse algo, ele repetiu a mesma
pergunta…
Meus olhos se abrem. Sou, então, acordado à realidade com uma cutucada
no braço e uma pergunta: “vai descer aqui?”. Nesse instante, percebi que eu ainda
estava no ônibus, percebi que as cascas duras de nós mesmos ainda não tinham
sido estouradas para liberar os prazeres corpo a corpo compartilhados e que toda
essa realidade, atraentemente pipocante e saborosa, não passou de um simples
sonho momentâneo, uma ilusão imagética de quem deseja provar do sabor da
pipoca alheia. É… sonhar faz parte da vida, mas há horas em que, tal ação, dói no
profundo da alma.

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