“Hetero” Sigiloso

Por Alan Martins

Encontrei-me com ele hoje. Não presencialmente, mas por acaso no
WhatsApp. Estava passando o olho despreocupadamente pelo histórico de
conversas, quando me deparei com a foto dele. Lá estava o “sigiloso”, todo bonito,
olhos vidrados e calmos, expressão suave no rosto, boca rosada e apetitosa… ah,
me bateu uma saudade tão grande. Por um instante me senti em contato direto com
ele. Pareceu-me estar com seu amor em abundância, feito árvore a derrubar seus
frutos de tanta fartura. Dei um leve sorriso. A nostalgia do momento me fez
congelar. Rememorei cada encontro vivido antes de sua partida, cada palavra
trocada e cada energia sentida.
É estranho saber que quem você ama não está ali, do seu lado. Mas, por
algum motivo, meu coração sente que o encontrarei novamente. Desta vez, não
será por uma foto de perfil em rede social, será no toque a toque de energias
corporais. Dessa vez, ele não irá embora estudar sem mandar notícias, não irá
correr para teatralizar a pseudo-identidade heteronormativa de si que ele chama de
vida, até porque, sei, lá no fundo de minha alma, que ele sente a minha falta assim
como eu sinto. Sua foto e visualizações nos meus status é uma prova disso – eu
espero que seja – e mesmo que talvez seja loucura de minha mente, eu gosto de
senti-la. Prefiro conviver com essa loucura do que deixar o sofrimento definhar,
dolorosamente, minha esperança de vê-lo outra vez, mesmo que por uma fotografia,
não simples, mas recheada de significados que acariciam e cuidam de um
sentimento/pensamento energético específico: nos amamos verdadeiramente do
jeito que somos, sem barreiras, sem preconceitos.
Hoje estou tranquilo quanto a essa ausência. Não sofro mais, e não quero me
prender a ele. Cada um está seguindo seus passos, buscando novos amores,
mesmo eu tendo a ciência de que ele não chegou a me amar como eu esperava,
por conta da repressão social. E isso faz parte da experiência das vidas
marginalizadas, infelizmente. O importante é deixar fluir e esperar que cada um siga
seu ritmo na busca por encontrar-se enquanto pessoa para deixar de interpretar um
personagem que o impede de viver em plenitude. No entanto, se um dia ele quiser
voltar, eu estarei aqui esperando para abraçá-lo novamente, sentir sua existência
gostosa e agradável, compartilhar palavras e danças, aproveitando, juntos, os frutos
maravilhosos dessa árvore farturante, os quais, a cada mordida, provocam uma
sensação que somente uma frase pode descrevê-la: Amar é libertar-se.

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