O que é ser uma mulher na “Casa de Bartô” ? Sobre a semana de 8 de março e feminilidades encurraladas
Na terceira semana de fevereiro, mais uma vez, fomos lembradas de que, exatamente nada, vale um corpo travesti. Lorena, enquanto uma corpa aberta para uma cirurgia de mamoplastia, foi deixada em meio a fumaça tóxica enquanto todos corriam do local. Começo em luto e solidariedade à família de Lorena.
No caso de Lorena, o sonho de colocar seios tornou-se um pesadelo que nos lembra que a mulher que estava na maca era uma travesti e, em meio ao início de um incêndio, ninguém se importou. Aliás, a notícia da morte de Lorena circulou, na maioria das postagens, entre redes sociais de pessoas trans, o que deixa claro que somos nós que choramos nós mesmas. As macroestruturas de comunicação, pouco se importam em noticiar “coisas de travesti”, quando a notícia não está dentro de estereótipos de “coisa de travesti”.
Isso me lembra de refletir um pouco sobre os sistemas de opressão e desrepresentação que afligem mulheres trans, mas também mulheres cis, que pela misoginia e transfobia recreativa, ambas perecem. O ódio ao feminino varia em diferentes modulações, mas sempre cruel. Ao final, sempre há ódio ao feminino.
Compreendendo a sociedade enquanto um composto geral de homens e mulheres cis e pessoas LGBT, compreende-se simploriamente que dois, desses três grupos, foram subjugados por um. Mesmo precisando tomar atenção nas fissuras, a construção da sociedade masculina gerenciou uma ordem de privilegiamento social deles, que exclui mulheres trans e mulheres cis, mesmo em modos específicos. Aqui, volto-me mais sobre a questão trans.
O processo de encurralamento do campo das feminilidades transvestigêneres pairam sobre aspectos sociais que não nos compreendem como mulheres. Em março de 2019 fui convidada como uma das expositoras iniciais de uma roda de conversas, e lá ouvi de um homem cis-hétero, em um grupo de estudantes, que o 8 de março não deveria ter homens, que era um desrespeito às mulheres, porque eu era um homem. Lançada a discussão virtual, algumas mulheres cis preferiram só visualizar, como quem poderia dizer algo, mas intimamente concordava que travestis não representam a luta feminista em espaços públicos, preferindo não entrar diretamente na discussão.
Abertas as brechas nas cabeças de muita gente, sobre minha identidade de gênero, mas também sobre o que é ser mulher, delineou-se limites e métricas cisgêneras sobre como devem ser as mulheres que podem falar. Diferente de nós, que estamos na base de uma marginalização compulsória, me pareceu que muita gente cis acredita mesmo que travesti só representa travesti. Será mesmo que essa métrica cisgênera de dominação e poder cabe a nós, com índices altos de marginalização, onde muitas foram colocadas à rua ainda crianças?
A deslegitimação das identidades de gênero transfemininas é um golpe baixíssimo, que paira em vários ambientes e espaços dominados por discursos que nunca pensaram sobre pessoas trans. Para a grande maioria da sociedade, somos abjetas, aquele outro, estranho e ao longe. Nesse ínterim, assim como é inadmissível um homem dizer quais perfis de mulheres podem ter a legitimidade de falar, em eventos temáticos no 8 de março, também é inadmissível os movimentos de feministas e de mulheres serem trans-excludentes, assim como colocar homens enquanto “pró-feministas”, como se as condições de feminismo fossem exclusivas das mulheres cisgêneras.
O encurralamento, ou qualquer ausência de mulheres travestis e pessoas trans, assim como a delimitação de quando uma pessoa trans pode ou não compor um lugar de fala, acredito, parte não só do preconceito, mas também de um desconhecimento histórico da nobreza das lutas travestis, para poder ter uma identidade feminina livre.
Pensando nessa última semana de 8 de março, a luta transfeminista não pode andar sozinha, nem ser reclusa a nós. Pessoas não devem achar que a luta transfeminista pertence só às pessoas trans. Todos os feminismos pertencem a mulheres e homens, cisgêneres e transgêneres, assim como gêneros indefinidos. Qualquer pessoa que reconheça as dinâmicas de opressão de gênero e busque conhecê-las pode dizer que é [trans]feminista.
É importante saber isso porque o famigerado conceito de “local de fala”, muitas vezes, é engessado em condições físicas, por uma grande parte de pessoas, muito ao contrário do que ele realmente é: “lugar de fala” é consciência histórica e de grupo.
Com o engessamento dos nossos locais de fala, corre-se o risco de algumas quebras, e de uma sistematização de operação inversa que favorece os discursos hegemônicos e opressores. Desde que se tenha consciência cuidadosa e histórica do que se fala, qualquer pessoa pode falar em contribuição de qualquer grupo. O que não pode é confundir contribuição com tomada de visibilidade. Visibilidades estas, que são escassas, urgentes e precarizadas. Se alguém de grupos marginalizados têm propriedade intelectual de sua história, ninguém deve falar por ela senão ela mesma, mas todos podem contribuir, sempre, para a construção coletiva de equidades.
Ao passo que é descabido acreditar que travestis são homens, na mesma proporção é acreditar que homens não podem ser feministas e transfeministas, sejam homens cis ou trans. Homens e identidades masculinas verdadeiramente comprometidas com os feminismos fazem muito mais pelo fim das opressões de gênero, do que mulheres e identidades de gênero femininas machistas e misóginas.
Nesse tocante, há um tempo, já ouvi de duas pessoas que “não existe mulher machista, existe mulher que reproduz o machismo”. Esse local de encurralamento engessado das identidades, além de ilógico, deixa passar, e maldosamente justifica, agressões pesadas cometidas por mulheres machistas e misóginas. Essa violência existe, e a partir do momento que violenta a condição de gênero cis de alguém, mesmo que o agressor tenha sofrido agressões antes, não diminui a gravidade das violências cometidas. Essa frase supracitada jamais se aplicou às travestis, já que sempre fomos vistas como violentas e marginais, e nosso gênero e identidade feminina sempre foi vista como o motivo disso.
A população trans e travesti carece de cuidados, mas a sociedade brasileira, hermeticamente conservadora, carece de consciência acerca de gêneros. Quanto mais cedo mulheres e meninas cis e trans tiverem acesso à informação de qualidade, despida de preconceitos, melhor para nossa sociedade futura e para os feminismos. Em um exemplo claro e não muito distante, está o desconforto causado pela palavra “travesti”, que constantemente arranha aos ouvidos de muita gente, que não sabendo que “mulher trans” e “travesti” trata-se das mesmas pessoas, acabam por acreditar que o termo “trans” é mais respeitoso e menos marginal que a palavra “travesti”, relegada à rua, homicídio, prostituição, furto, etc… Há uma construção clara, começando pela ideia das palavras, operando para a manutenção de sistemas opressores.
Outro exemplo aqui no Brasil, são as ofensas. Sempre que um homem quer ofender uma mulher, ou uma mulher à outra mulher, de maneira grave, um dos xingamentos mais pesados é “parece um travesti”, causando deslegitimação pelo riso, e pela feiura que, supostamente nós, travestis, temos. Me parece estranho e ao mesmo tempo uma reafirmação de condenação enraizada e eficaz, até mesmo para muitas de nós, identidades transfemininas, se auto-identificar como “travesti” necessita de um processo de aceitação e de convivência com a palavra. Não à toa, muita gente cis usa a palavra para agredir outras, porque sabem dos preços que pagamos por passarmos a vida sendo “ridas” pelos outros.
Isso acontece porque historicamente, a identidade travesti, relegada a noite, à margem e à mercê da sociedade civil que labora durante o dia, foi estigmatizada como sinônimo de vidas mais danosas que poderiam existir, logo, ao longo do tempo, o que fica no nosso imaginário é o quão ruim é a palavra e a pessoa travesti, ou muito antes disso, aciona em nosso inconsciente que não podemos ser travestis porque o que nos aguarda é o rechaço, o isolamento e o sumiço social, que em resumo é a impossibilidade de vida.
Em outras palavras, ofender alguém com a palavra “travesti” como adjetivo ruim, tirando a categoria gênero das identidades e colocando-o no campo das qualidades, coloca-nos de frente a uma simbiose entre inconsciente popular que teme e odeia as trans identidades femininas, ao mesmo tempo que o deseja em diferentes vias, já que coloca-o nome e adjetivo.
Além disso, gostaria de contar outra coisa para celebrar o 8 de março e este mês das mulheres, que também é travesti, para além dos processos de estigmatização, e nada melhor que um exemplo explícito, já que “a imagem vale mais que mil palavras” (risos): convido à todes para assistir “Casa de Bartô”, com outros olhos, depois desse texto.
Em especial, o vídeo “Casa de Bartô” aqui sugerido, é uma reprodução parcial de um documentário pensado e apresentado pelo jornalista Goulart de Andrade, com o auxílio de uma rara travesti visível na cena paulistana, Andréa de Mayo. O fim da Ditadura Militar e os anos iniciais da nova democracia marcaram um momento de abertura de gênero e sexualidade muito específicos na história do Brasil. Esse documentário foi exibido em rede nacional anos antes da novela Global “Tieta” (1989), que também marcou a época e a história da TV, com uma abertura de uma mulher de seios desnudos, quase todas as noites na sala de televisão dos brasileiros.
Na casa de Bartô, o que nós vemos é um sistema ancestral de mulheres travestis, envolto em sistemas de violências que claramente nos objetifica, também. No vídeo, dois sistemas de pensamento, e isso é perceptível com o despudorado despir dos corpos de Bertô e outras meninas, durante toda a entrevista. Se para Bartô “o confortável é uma menina aqui, uma garrafa de café ali, cigarro e nós conversando”, o confortável de Goulart de Andrade foi ultrapassar a intimidade de realidades precarizadas, mostrando como “os” travestis têm corpos construídos para parecer com mulheres cisgêneras.
Mesmo para além da objetificação, a grandiosidade de Bartô é o que prevalece. Enquanto os olhos do preconceito via homens parecidos com mulheres, Bartô, generosamente, falou sobre tudo o que sabia. Apesar da condição marginal, adquiriu conhecimentos cirúrgicos, anestésicos e anatômicos para se construir enquanto uma mulher, e mulher feita, construir outras também.
É na figura de Bartô que está a ancestralidade das mulheres travestis, que mesmo tendo empecilhos sociais e sendo amplamente colocadas em vidas precárias, destituídas de absolutamente tudo, família, educação e Estado, ainda assim, dão jeitos de conseguir o que quer, e fazer o que é importante para elas. De tanto apontadas enquanto homens, a força de construir-se mulheres de direito e reconhecidamente, não é qualquer coisinha, é um sentido de vida.
Nessa construção constante de direitos civis e humanos para as travestis, não existe mês das mulheres sem nós em espaços de fala. Minha luta, assim como a luta de outras pessoas transfemininas, é para que um dia, não haja mês das mulheres. Para que um dia, não haja calendários nos lembrando de violências de gênero, e até lá, não existirá equidade e luta feminista sem as travestis.
Bartô foi uma grande pessoa, e nos seus breves momentos de 21 minutos de visibilidade para a TV, talvez o único momento da sua vida que alguém cisgênero à achou importante para falar, ela deixou registrado profundas marcas da história da força das travestis. Enquanto mulher, Bartô vive, inspira e luta!
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Excelente texto!!👏👏👏
Sabe o que aconteceu com a Bartô? Se está viva?