Como se produz “joãozinhos”: reflexões sobre a masculinidade hegemônica e outras masculinidades possíveis

Toda vez que menciono a palavra “masculinidade”, um conjunto de ideias surge no imaginário popular. O termo é geralmente associado pelas pessoas à figura do homem cisgênero[1]. Este homem possui também uma identidade fixa, é branco, de classe média, heterossexual e viril. Em resumo, ele é um reflexo da visão biologizante e trans-histórica construída como suporte para a imposição das normas sociais e de gênero.

Este homem, como já deve ter ficado claro para o leitor, é uma espécie de modelo ideal que representa as expectativas sociais para o gênero masculino. Mas, a masculinidade não é homogênea. É necessário pensa-la através de sua diversidade e do seu cruzamento com os inúmeros marcadores sociais. Podemos pensar nas relações entre raça-etnia, classe social, religião, sexualidade, estrutura física do corpo, idade, regionalidade, religiosidade, entre outros. Isto torna as identidades masculinas diferentes entre si e garante sua pluralidade.

Apesar da pluralidade intrínseca à identidade masculina, apenas o modelo ideal supracitado é plenamente aceito na sociedade e garante todos os privilégios de ser homem no interior da sociedade patriarcal. Este modelo ideal, Raynael Connell chama de masculinidade hegemônica. A autora explica em seu livro “Masculinities”, que em um determinado tempo e espaço sempre haverá um modelo de masculinidade plenamente legitimado na sociedade, enquanto os outros serão considerados formas subalternas.

Judith Butler, teórica queer, explica no livro “Problemas de Gênero” que todos os corpos são “generificados”. Isso quer dizer que não há algo como “corpo natural” ou “corpo de verdade”. Para ela todos os corpos são dotados de significados no interior da cultura não havendo, portanto, significado inscrito no corpo que seja anterior ou fora da cultura.  Gênero, segundo a autora, não é algo que se nasce com e sim algo que se constrói e se cristaliza ao longo da vida dos sujeitos.

O gênero masculino também é, por tabela, uma construção social. Vamos retornar ao velho exemplo da mulher grávida para tentar fazer com que essas ideias se tornem mais claras, pois sei que, de primeira, essas informações podem soar um pouco incompreensíveis e talvez até… absurdas. Mas não desistam dessa leitura ainda! Façamos esse pequeno exercício. Imagine uma mulher grávida se dirigindo a uma clínica para realizar a ultrassonografia. Lá, o médico esfrega uma gosma fria em sua barriga e em uma espécie de TV aparece um borrão – ou seja, o bebê. Naquele aparelho, o médico localiza a sua genitália e a partir dela anuncia que é menino (caso visualize um pênis) ou uma menina (caso visualize uma vagina). O anúncio do médico faz mais do que constatar o sexo do bebê, naquele momento ele traça para aquele sujeito um destino.

A partir da genitália identificada uma série de expectativas sociais recairão sobre o bebê. Identificado o pênis, se espera que o bebê seja menino, que haja como um menino e que goste de meninas. Fora da barriga da mãe, ele será mergulhado em um universo na cor azul, o rodearão de brinquedos que remetam a virilidade (como bonecos, carrinhos, ferramentas, aviões, tanques de guerra e etc.), o instigarão a apreciar esportes, a ser competitivo e a passar mais tempo ao lado de outros meninos. Essas medidas visam garantir que o garoto siga as normas impostas para a masculinidade. A construção do homem, como podem perceber, está em curso. Para que compreendam melhor como essa masculinidade é construída socialmente e ensinada aos meninos desde a mais tenra idade, seguirei o texto com uma pequena crônica.

Certo dia estava na janela do meu quarto e observei o vizinho, acompanhado do seu filho, estacionar o carro. Eles voltavam do supermercado e o porta-malas estava repleto de sacolas. O garotinho, de aproximadamente 6 anos, tentou ajudar o pai a levar algumas para dentro de casa. Por serem grandes e pesadas de mais para o seu pequeno e franzino corpo, ele não conseguiu carrega-las. O pai, com uma expressão carrancuda, lhe disse: “levanta as sacolas, você não é homem, não?”. Certamente, experiências como estas se repetem ao longo da narrativa de vida desses “joãozinhos” marcando suas subjetividades. A construção e reforço das normas de gênero são praticados\ensinados desde antes de o bebê sair da barriga da mãe e se perpetuam até o fim de seus dias. Sem trégua.

A lógica da legitimação da masculinidade, que busca reproduzir o modelo hegemônico, está assentada, sobretudo, na opressão misógina e homofóbica. A mulher deve ser tratada pelo homem como aquilo que jamais deve se comparar ou se aproximar. O ódio homofóbico se entrelaça com a misoginia, pois ser um homossexual para o homem é uma forma de masculinidade degradante e desgraçada, que se compara a posição da mulher na sociedade. Recorrerei novamente a uma crônica para tentar ilustrar e elucidar o que eu escrevo aqui.

Voltando da universidade (quando ainda era possível voltar da universidade, em uma era muito distante, pré-pandêmica) cansado e com preguiça de fazer meu próprio almoço, resolvi comer em um restaurante no Garcia, bairro em que moro em Salvador. Este restaurante fica próximo do colégio privado Antônio Vieira. O público do restaurante é basicamente formado por alunos dessa escola. Eu me sentei sozinho em uma mesa e do lado estavam sentados seis destes estudantes. Todos homens. Em um dado momento outro estudante do colégio passou perto de nossas mesas, os rapazes se cumprimentaram e um deles disse: “Nossa, o corte de cabelo novo de Fulano está tão fofinho!”. Em resposta ao comentário inocente, os outros rapazes seguiram com uma série de ataques que questionavam a masculinidade deste garoto acionando, obviamente, discursos misóginos e homofóbicos. O chamaram de “mulherzinha”, “viadinho”, “putinha de Fulano”, “bicha”, entre outros.  A base que sustenta a masculinidade, como eu havia sinalizado anteriormente, é certamente a da opressão e submissão de outras identidades. Subalternizar o outro, é exercer o poder de dominação masculino e legitimar a si mesmo.

Em resumo, o exercício da busca de uma legitimidade da masculinidade, que se espelha na masculinidade hegemônica, é diário e interminável.  É uma construção que se ancora em um discurso de opressão e que necessita ser repensado para que desta forma possamos minar o machismo por dentro. Lutar por uma sociedade sem misoginia e sem homofobia também passa por um projeto de sinalizar que outras masculinidades são possíveis, masculinidades que libertam e que não (n)os aprisione.

[1] A cisgeneridade remete ao sujeito que se identifica com o gênero que lhe foi determinado no momento do seu nascimento.  O homem cisgênero é aquele que nasce com a genitália masculina e se apresenta na sociedade como homem.

*Imagem de capa produzida por Francisco Hurtz.

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