A Cor Púrpura – Alice Walker

Publicado em 1982, o romance de Alice Walker, A Cor Púrpura, venceu o prêmio Pulitzer em 1983, adaptado para o cinema em 1985 e tornou-se um musical em 2004 na cidade de Atlanta, EUA. A narrativa, que se passa no início do século XX, é composta por cartas escritas pela personagem principal, Celie, destinadas a Deus e à irmã mais nova, Nettie, nas quais conta sobre a sua vida em uma fazenda localizada no sul do Estados Unidos. A história gira em torno de Celie, Nettie, Shug Avery e Sofia, além de outras mulheres negras inseridas no contexto rural da Geórgia.

Celie, depois de sofrer abuso do próprio pai por anos, foi impedida de criar dois de seus filhos e é obrigada a casar-se com Albert, um homem violento que a agride verbalmente, fisicamente e sexualmente. Sobrevivendo em meio a tanto sofrimento como esposa de Albert e “mãe” dos filhos dele, Celie escreve cartas à irmã na esperança de reencontrá-la um dia, mas sem saber se ela ainda está viva.

É na figura de Shug Avery, uma cantora de blues e amante de Albert, que Celie reencontra um pouco de felicidade e carinho. Quando Shug Avery é levada para a fazenda para cuidar de uma doença. Assim, Celie fica responsável por cuidar dela e as duas acabam aproximando-se, firmando uma amizade baseada na troca de experiências vividas por ambas.

É com Shug Avery que Celie aprende mais sobre seu próprio corpo e sexualidade, quando ambas se tocam e juntas exploram o prazer que podem obter no sexo, algo até então desconhecido por Celie. “Eu olhei pra ela e toquei o butão com meu dedo. Um tremorzinho me sacudiu. Num foi grande. Mas foi o bastante pra mostrar que esse era o butão certo pra apertar. Quem sabe.” (WALKER, 2016, p. 81).

Essa é uma história que deixa explícita a violência e os traumas sofridos por Celie, além de retratar também o amor entre irmãs e mulheres. E a resistência e força encontradas nas relações de igualdade. Confira abaixo um trecho:

 

“Minha mamãe morreu, eu contei pra Shug. Minha irmã Nettie fugiu. Sinhô___ veio e me levou pra cuidar das crianças malcriada dele. Ele nunca me perguntou nada sobre mim. Ele trepa encima de mim e fode, fode, mesmo quando minha cabeça tá enfaixada.

Nunca ninguém gostou de mim, eu falei.

Ela falou, eu gosto de você, dona Celie. E aí ela virou e me beijou na boca. Uhm, ela falou, como se tivesse ficado surpresa. Eu beijei ela de volta, falei, uhm, também. A gente beijou e beijou até que a gente já num conseguia beijar mais. Aí a gente tocou uma na outra.

Eu num sei nada sobre isso, eu falei pra Shug.

Eu também num sei muita coisa, ela falou.

Aí eu senti uma coisa muito macia e molhada no meu peito, senti como a boca de um dos meu nenê perdido.

Um pouco depois, era eu que era também como um nenê perdido.” (WALKER, 2016, p.110).

 

Walker, Alice. A cor púrpura. 1. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016.

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Carolina Hartfiel Barroso

Graduada em Relações Internacionais pela USP e graduanda em Letras Português/Espanhol na mesma universidade. É pesquisadora de literatura lésbica.

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