Conto – Adormecida

Aos 13 anos eu já tinha lido Nárnia. Para testar as águas de Coraline, primeiro vi o filme e só li o livro aos 15 anos. De um armário a uma porta que só a pequena Coraline podia abrir, é no momento decisivo da travessia para um mundo novo que essas histórias agarram pelo pulso e puxam a gente pra dentro. Dentro de um buraco ainda mais profundo do que aquele em que Alice caiu, no íntimo da própria cabeça. Não há matéria mais maleável e imprevisível que o imaginário humano.

Foi nessa máquina de inventar vidas e histórias que eu me apaixonei. Que fique claro desde o início que não brinquei de Deus com sua criação, na verdade, ela quem veio até mim em sonho um dia. Só brinco de criadora quando quero tirá-la da monotonia de viver dentro do meu cérebro. Hoje lembro, como uma lembrança desgastada por ter sido visitada vezes demais, do dia que nos conhecemos.

Era sonho, era o Éden seco e abandonado, eram os nove círculos do inferno de Dante florescendo com cores e formatos de sonho. Era o mundo de cabeça pra baixo e, enquanto eu assistia a queda de santos e o erguer de agradáveis angústias, ela estava lá ao meu lado, como as coisas são em sonho: uma hora não está e depois está, você é e não é, ela segurou minha mão e éramos uma coisa só assistindo o bizarro espetáculo da minha mente. O gesto singelo de tomar minha mão foi tudo que precisei para entender que era aquele o momento de travessia da minha história. Restava-me puxar a mão ou me deixar cair sem nunca pensar no fundo do buraco.

Naquela noite acordei às 2h44, como se escapasse de um pesadelo. A garganta seca implorava por água enquanto eu me dava ao luxo de saborear a imagem dela em lembrança pela primeira vez. Eu não sabia que cor eram seus olhos porque eram inteiros de uma cor só desconhecida, de um tom tão singular que não existia. Não sabia se era alta ou baixa, de cabelos cacheados ou lisos. O que eu sabia era que a luz que entrava pela janela e esbarrava nos objetos do quarto formava no chão uma sombra dançante que me lembrava os olhos dela. Naquela noite, o sono foi embora, mas o deslumbramento, não.

Muitos dias se passaram até que eu pudesse vê-la novamente. Agora ela se sentava ao pé da minha cama. Eu sabia que estava dormindo tanto quanto sabia que ela estava ali comigo. Era uma magia tão sutil e gloriosa que não me importava se fosse fruto da minha mente estressada, um presente divino ou punição maldita. Que alívio era estar presente em sua companhia. Ver seu sorriso, tentar decifrar seus olhos, seus cabelos. De repente eu já estava sentada e estava pronta pra falar com ela, quando ouvi sua voz rouca me alertar: “Não se perca na sua mente”.

Fiquei confusa e ao mesmo tempo compreendi tudo. A constante dualidade me cansava e me deixava energética ao ponto de não me importar com a pergunta absurda que nós duas sabíamos que eu faria.

— E como eu vou te amar?

— Não se perca na sua mente. É sério cara. Aí dentro é um caminhão de lixo.

E ela sorriu. Eu ri. Já a amava e, como era sonho, eu sabia que ela também me amava. Não sabia o motivo e nem queria saber. Se existia algo incompreensível entre o céu e a terra, ela estava ali sorrindo para mim.

— Você existe ou a quarentena me deixou louca?

— Quando você pensa em amor, pensa em mim. Quando eu penso na existência, penso em você. Isso responde a sua pergunta?

— De jeito nenhum, tá doida? Me deixou foi com mais perguntas.

— Não se perca na sua mente. Chega pra lá nessa cama.

Naquele sonho ela não me respondeu. Em muitos outros que sucederam esse, também não. Havia sempre o aviso para não me perder, então decidi abandonar a procura. Aceitei o destino, as incongruências e o amor. Estava no meio da minha história e decidi que era boa suficiente pra continuar lá dentro. Alguns dias eu sonhava que estávamos em Paris comendo sushi, sonhava num planeta onde a vegetação corria pelos campos e os animais nasciam de árvores ou simplesmente que ainda estava na cama e ela vinha me visitar. Era noite e olhávamos pro céu azul claro e cheio de nuvens. Eu estava sozinha ao lado do meu amor e aqueles olhos que eu nunca vi continuaram me guiando, noite após noite, para histórias infinitas e carinhos encantados.

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