Indicação – Lundu (Tatiana Nascimento)

Tatiana Nascimento é brasiliense, educadora, poeta, cantora, compositora, slammer, tradutora e editora-fundadora da Padê Editorial, que publica livros artesanais de autoras negras e LGBTQIA+. Doutora em estudos da tradução, Tatiana destaca em sua tese a importância de textos como os de Cheryl Clarke, Audre Lorde e Doris Davenport, autoras traduzidas por ela, para o reconhecimento e a formação ativista de negras lésbicas.

“Lundu”, publicado em 2016, é sua primeira coletânea de poesias, e faz um diálogo do cerrado de Brasília com o mar diaspórico distante e ainda tão presente. Sua escrita, cheia de águas, carrega imagens de afetos que contrastam com a sólida aridez das terras vermelhas dos latifúndios. Elementos da natureza, como o vento, fazem dançar os amores nos versos breves e ritmados, que puxam e arrastam como as ondas de um mar infinito de existências cuíerlombolas. A ancestralidade, através de diálogos com os orixás, é um caminho aberto para os afetos, resistências e subversões de uma lógica branca heterocisnormativa colonial.

Abaixo, transcrevemos o poema que dá nome ao livro, “Lundu”, e inserimos um vídeo da autora recitando o poema “cuíer paradiso”:

lundu,
vem cá, deita em mim que nem ar que de tanto amar a gravidade deita em cima de tudo que tem na superfície da terra y empurra quem tá dentro dela, ou que nem água vai se deitando em ondas sobre toda areia de qualquer praia pela dança do humor das marés, vindo indo no fluxo do vento, da lua, do sol, até, se te fizer sentido

ou então chama de F31.oceânicas se te apetecer, que elas são imprevisíveis, as ondas são imprevisíveis pra afobação contida dum relógio, um diagnóstico de “doença mental”. mas vem, deita aqui que eu te recebo, y todo seu desejo, refluente, mas sempre

presente
ao mesmo tempo embrulhado y anunciado do silêncio
que suas várias vozes calam,
mas sempre

presente. eu quero que c me queira tanto y lento que nem um anú pairando no vento, pra quem o ar é casa tanto quanto a asa é força da expressão de sua graça, da engenharia sutil do seu povo, uma herança alada

que c pouse esse eu me tremer por dentro num sopro de saliva quente que nem vida significa ar prum anú muito além da pérola macia da pleura dele… no querer do seu desejo meu desejo refez inteiro (é que eu não nasci lésbica)
na arrebentação do meu desejo te quero oceano ao
avesso (uma hipotenusa desértica)
é assim que eu sinto o que é dialética,
y esse meu abandonar também dança

uma diáspora

tem um som
um som que seu cabelo faz no meio do meu dedo
é quase um tom específico de crespo
guardado entre as camadas de uma voz
sua sampleando cada pétala de flores como na sua boca
toda tragédia fosse
virar música de novo

(beat box)

é que eu te vi dançar, y em menos de um instante eu
já sabia que ia fugir tudo dentro de mim se eu não te
respirasse feito um cheiro antigo estranho
familiar nítido
se você não fosse a pele exata da noite embaixo do
sonho escuro de minhas pálpebras

aí eu voltei lá y prometi pra todas elas, sopro do
mar, ondas do vento, gotas de sol fossilizando na

minha pele o corpo evaporado de água-mar em pedrícu-
las de alma-sal, uma lembrança

eu prometi que eu dançava um lundu pra você quando
esse desejo chegasse

y recuasse
avançasse
y recuasse
assentasse

y recuasse molhando fundo ancestral perene turvo tudo
que transborda de você y eu na beira desse abismo,
beira do mar.

na beira do mundo, as ondas deitam na maré pra encher
assim como o vento deita num pulmão pra suceder
a escuridão deita no horizonte pra anoitecer
y eu
deito
em você.

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Carolina Hartfiel Barroso

Graduada em Relações Internacionais pela USP e graduanda em Letras Português/Espanhol na mesma universidade. É pesquisadora de literatura lésbica.

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